“Se você não quer ser notícia, não dê trabalho para a Polícia”

Quando deixa de apurar corretamente ou segue apenas o que foi relatado por órgãos oficiais, a imprensa não informa. Com o uso de adjetivos, afasta-se do fato. Este artigo mostra o caso de um jovem de 22 anos preso por estupro e que dias depois, após ser achincalhado pela imprensa, foi solto porque não era o responsável pelos crimes.

Tiago Severino

31 de dezembro de 2017. A Polícia Militar prende um homem de 22 anos suspeito de estuprar duas mulheres, na cidade de Buritizeiro (MG). Com o suspeito, os militares encontram duas porções de maconha, comprimidos de cafeína e sacos plásticos que, na versão oficial, eram para embalar drogas. Dias depois, a Polícia Civil informou que o rapaz havia sido preso por engano. Outra pessoa havia praticado os crimes.

O erro deixou o jovem quase 20 dias na prisão. Na imprensa, ele teve nome e fotos divulgados. Em uma das imagens, o rapaz aparece sentado no chão com as mãos algemadas. No site Web Terra, o título da reportagem responsabiliza o jovem diretamente pelos estupros: “(nome), maníaco de Buritizeiro, finalmente é preso”. No site da afiliada da rede Record na região, o destaque foi semelhante: “Maníaco de Buritizeiro: homem é preso suspeito de pelo menos dois estupros no Norte de Minas”.

Outros veículos foram mais cuidadosos, o site do jornal Gazeta Norte Mineira mostrou apenas a foto do que foi apreendido na casa do rapaz. Não colocou o nome e nem mesmo as iniciais. O relato é basicamente um resumo do que foi divulgado pela PM, porém sem os detalhes pessoais. No site da rádio Clube FM não foi possível verificar como o fato foi noticiado. A página está on line, mas ao acessá-la aparece a informação de que “o artigo não existe no banco de dados”. O G1 também divulgou o fato naquela data, mas, durante a produção deste artigo, o arquivo não foi encontrado para análise.

Na rádio 98 FM, localizada na cidade onde o crime aconteceu, o fato foi amplamente divulgado pelos dois principais programas noticiosos da emissora. Em um deles, o locutor, dedicado a falar somente sobre o tema de segurança e violência, termina sempre o seu programa com um bordão que, naquela ocasião, foi uma sentença fadada ao erro: “Se você não quer ser notícia, não dê trabalho para a Polícia”.

A Polícia Militar também divulgou a notícia da prisão no site da corporação. Postado no dia 2 de janeiro, o texto informa que “a força tarefa da Polícia Militar conseguiu levantar dados com as vítimas que permitiram prender o autor em sua residência, no centro da cidade”. A PM garante que o jovem foi reconhecido pelas vítimas. No último parágrafo, a assessoria da PM afirma que o comandante “realizou a visita tranquilizadora às famílias das vítimas e entrevista à rádio local, prestando contas à comunidade sobre a conclusão desses crimes que chocaram a cidade”.

A notícia e a dignidade humana

Cabe a imprensa divulgar, mas também levantar dúvidas sobre aquilo que parece já estar pronto ou solucionado. Todos os envolvidos na produção da notícia deveriam colocar à prova informações que vão constituir uma reportagem, antes de publicá-la ou, no mínimo, apresentar com algum equilíbrio o contraditório.

À primeira vista, uma investigação seria para repórteres especializados realizar em matérias de fôlego. Na verdade, investigar é questionar o que parece óbvio.  Apesar de dar garantias ao público de que esse tipo de prática é uma rotina, quase sempre, os veículos de comunicação apenas republicam o que vêm das assessorias de órgãos oficiais. Não se questiona a informação enviada pela polícia. Já ouvi editor dizer: “está no boletim de ocorrência, então está certo. Publique”.

Para se resguardar de possíveis equívocos, a imprensa costuma usar termos que indicam a origem da informação, como “segundo a Polícia Militar”. Outra estratégia é suavizar a divulgação do fato com o verbo “teria”. Assim, o fulano teria cometido o crime, segundo a Polícia Militar. É como se jornalistas e veículos de comunicação não fossem responsáveis pela divulgação do fato. Apenas expõem algo que é de interesse público.

A maneira básica de divulgar notícias de crimes é essa: nome, foto e como o crime “teria acontecido”. Os jornais têm uma ideia  de que a Polícia Militar, por ser um órgão do Estado, se guia pelo princípio da boa-fé. Um inocente jamais vai ser preso à revelia. Mas erros acontecem.

O problema, no caso aqui discutido, é que, apesar de apontar o jovem como suspeito, as reportagens expõem a imagem dele e o tratam como “maníaco”. Se ele é ainda suspeito, não é sequer acusado, não foi condenado, então existe uma possibilidade de ser inocente.

E quanto uma informação imprecisa pode prejudicar alguém? No Guarujá, litoral de São Paulo, uma mulher foi morta depois de que boatos se espalharam em redes sociais de que ela sequestrava e matava crianças em rituais de magia negra. Fabiane Maria de Jesus foi linchada por moradores que acreditaram nessas informações. Os boatos sobre o desaparecimento das crianças eram inverídicos.

Isso mostra o quanto as ferramentas digitais de compartilhar conteúdo inflam ódio e incitam o medo. À medida que os assuntos vão sendo publicados e republicados, mais as pessoas se sentem ameaçadas, amedrontadas e estimuladas a reagir de modo irracional. É a mesma lógica do terrorismo, que se pauta pelo uso do medo para provocar desequilíbrios. No caso de Buritizeiro, quando os estupros aconteceram, houve uma série de mensagens que circularam pela internet para alertar as mulheres da cidade sobre os crimes. Será que a pressão das redes sociais provocaram a PM a agir e isso resultou em uma operação desastrosa?

Outra face cruel do mundo digital é o não esquecimento. Sempre aquelas informações estarão lá. É como se diz: “uma vez na internet, para sempre na internet”. Sem direito ao esquecimento, o rapaz preso indevidamente vai estar associado ao caso do estupro eternamente.

Mas então a imprensa não pode divulgar crimes? Pode e deve. Mas é preciso guardar o respeito e dignidade às vítimas, que já sofreram um ato de violência, e também do suspeito, que até ser declarado culpado, é inocente. Para isso, não basta apenas dizer que ele é “suspeito”. O jornalismo não deve personificar os crimes com classificações como “maníaco”.  A base da notícia é o relato objetivo, sem adjetivos.

Talvez os defensores de penas mais enérgicas para os crimes de estupro não gostem desse pensamento. Costumam argumentar: “e se a vítima fosse alguém da sua família?”. O objetivo aqui não é relativizar o crime de estupro que é uma das maiores atrocidades que existem. A intenção é evitar que um ato de violência que vitimou inocentes abra mais feridas em quem não tem nada a ver com a história. A melhor resposta a esta pergunta seria, então, outra questão: “e se a pessoa presa por engano fosse da sua família?”.

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