Jornalismo de tragédia

Henry Luce, fundador da revista americana Time, costumava dizer que para os jornais “tragédia nunca é demais”. Em uma equação cruel, quanto mais vítimas, maior seria o interesse da mídia. Por consequência, o clamor geraria leitores ávidos em conhecer o assunto em seus diversos ângulos. Os programas policialescos de fim de tarde são crias da morbidez humana e da sanha de urubu de uma parcela da imprensa.

Antes de se ver em meio a uma tragédia com câmera e microfone nas mãos, o jornalista critica ferrenhamente este tipo de cobertura. Ainda na graduação, o jovem é confrontado diversas vezes sobre as razões que escolheu a profissão, as dificuldades que vai enfrentar e como evitar para não ser uma ave de rapina. Porém, tudo parece permitido depois que encara a realidade e as utopias teóricas se esvaem.

Ninguém fala a este jovem jornalista da desumanização que pode ocorrer quando você é obrigado a lidar diariamente com tragédias. O profissional passa a desejar que casos de grande repercussão apareçam para que ele tenha a projeção que tanto almeja. Por isso, é comum uma certa ânsia em alguns profissionais para que fatos assim aconteçam. Em outras palavras, há quem torça pela desgraça dos outros.

A lógica do “quanto pior melhor” não é apenas uma política editorial. É também uma postura pessoal que o repórter pode adotar. Mesmo nos noticiários que procuram ser mais assépticos, sem fazer o discurso do sensacional com virulência, é possível encontrar as carpideiras da notícia – um profissional que acredita que seu sucesso depende do número de vítimas do ônibus.

O que esse tipo de jornalista deseja? De imediato, ser lido ou visto. A médio prazo conseguir um reconhecimento dentro da profissão, não pelos colegas, mas pelo chefe e donos da empresa. É a passagem para deixar de cobrir a geral e passar a fazer grandes reportagens, ganhar prêmios, melhorar o salário…

Imagine um médico. Se as pessoas são saudáveis, estão física e mentalmente bem, ele não terá trabalho. Entretanto, ninguém intencionalmente espera que o outro fique doente. Ao ser atendido por um profissional da área da saúde, o paciente também acredita que vai ter um diagnóstico adequado. O remédio indicado será para melhorar ou aliviar os sintomas. Via de regra, jamais um médico vai enrolar um doente para que ele fique fazendo exames continuamente.

No jornalismo de tragédia, a vítima pouca importa. As sensações humanas, como dor, medo e sofrimento, vividos por aqueles que foram afetados, são apresentadas para ampliar a dimensão do fato. O aspecto informativo é praticamente irrelevante. O mais importante é fazer o público se emocionar.

Por isso, a disciplina de ética na faculdade deve ir além de uma proposta conteudista. É preciso fazer uma provocação aos estudantes para que eles reflitam sobre seus projetos e visão de futuro. A formação humanística não pode ser algo que se abandona por uma questão de conveniência. Se a tragédia é notícia e deve ser contada, que o relato seja para informar, em vez de ser encarada como um trampolim na carreira profissional.

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