Arte e suas polêmicas

Costuma-se dizer que todo brasileiro é um potencial técnico de futebol. Como o esporte é uma paixão nacional, o público sabe exatamente o que o time do coração precisa para vencer ou evitar um rebaixamento. Nos últimos meses, as polêmicas sobre exposições artísticas tornaram todos também críticos de arte. Os entusiastas de uma pedagogia construtivista podem até achar esse súbito interesse positivo, afinal pessoas que nunca tinham expressado qualquer simpatia por questões artísticas começaram a escrever, compartilhar e discutir o que estava sendo apresentado em galerias pelo país. Mas o que realmente está sendo discutido?

Longe de qualquer tentativa de debate sério, quase sempre o que se vê nas redes sociais, é uma disputa de “achismos”. O que eu acredito, ou pelo menos acho que entendo, é melhor do que sua visão. Não há nas redes, em discussões desta natureza, espaço para o diálogo; apenas posicionamentos que já estão empacotados e são replicados.

Com uma postura maniqueísta, questiona-se a própria natureza do que seria arte. De um lado está um tipo de produção artística voltada para o que é agradável aos olhos, aos sentidos, que não ofende ou perturba; do outro uma arte degenerada, suja e impura. Para os torcedores de cada uma delas, as duas são diferentes não por razões técnicas, mas por aspectos morais que preservaram ou distorcem.

Pode haver uma arte que me agrada, que eu possa simplesmente achar bonito? Sim. A condição humana de creditar valor cultural exige objetos “esteticamente agradáveis”. Por isso, muitas coisas que lemos e ouvimos têm apenas a função de nos distrair, de fazer que a gente possa entrar em um mundo seguro, confortável. E será que pode haver uma arte que me incomode? Sim. Deve haver objetos artísticos que sejam capazes de questionar a estabilidade social aparente do mundo. O ser humano não consegue avançar sem inquietações, sem colocar em dúvida o que faz, pensa e constrói.

Por essa razão, certas exposições incomodam tanto. Ao se deparar com um conjunto de imagens que desestabilizam a paisagem cotidiana, o sujeito é retirado, de modo abrupto, do seu colchão ideológico. O mundo que parecia racional, estabilizado e seguro é colocado em xeque. Claro que ninguém é obrigado a concordar com absolutamente nada. Já que o objeto artístico não é para agradar, o produtor não pode esperar nem mesmo ser compreendido. E isso não quer dizer que o trabalho seja bom ou ruim.

Em um dos episódios recentes mais polêmicos, o Museu de Arte Moderna de São Paulo foi acusado de pedofilia por permitir que uma criança tocasse um homem nu durante uma performance. Após a divulgação das primeiras informações sobre o caso na internet, uma multidão já tinha pronta suas estacas contra os produtores do evento e o museu. Discutiu-se uma possível infração ao Estatuto da Criança e do Adolescente e, sem sombra de dúvida, ouve quem dissesse que aquilo não era arte.

O caso tem diversas faces que precisam ser analisadas com calma. A performance tem a proposta de repensar o significado do corpo nu, de permitir uma leitura da figura humana sem uma erotização. Como pai, não me agradaria levar meu filho de 3 anos a um exposição como esta. Prefiro trabalhar esta mesma temática de outra forma em casa. Mas esta é uma questão de opção. A família da garota escolheu levá-la à performance. Provavelmente, eles têm um tipo de maturidade que permite discussões desta forma. Muito pior são os casos de pais e mães que abandonam os filhos diante do televisor e do computador para verem o que quiser, sem oferecer qualquer tipo de instrução ou acompanhamento. O problema não é, então, o que se vê – o homem nu na exposição ou o beijo gay na novela – mas a falta de habilidade das famílias em abordar essas temáticas de forma humana, responsável e crítica. Sem construir heróis ou bandidos, deuses ou demônios. O grande desafio é reconhecer que não sabemos tudo e, por isso, as inquietações que as artes provocam têm uma validade para revermos nossas posições.

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