Concursos sem noção

Você vê uma notícia na web: concurso público na área de comunicação. Ao clicar, o texto informa que a remuneração é pouco maior do que um salário mínimo. A frustração é imediata. São as seleções sem noção. Veja só o exemplo da Prefeitura de Santana do Pirapama, no interior de Minas Gerais. O Município localizado na região metropolitana de Belo Horizonte abriu um concurso com 120 vagas. Uma delas é destinada para agente de comunicação. O edital admite graduados em comunicação social e pessoas que têm curso na área de telemarketing. É isso mesmo. Jornalistas irão concorrer com operadores de telemarketing. Sem desmerecer os profissionais desse setor, que, por sinal, também é bastante sofrido, mas são duas atividades de natureza completamente diferentes.

O caso da Prefeitura de Santana do Pirapama evidencia um problema: a falta de compreensão sobre o que é comunicação. As instituições públicas, com raras exceções, simplesmente não conseguem distinguir quais são as atribuições e especificidades de jornalistas, publicitários, relações públicas e, como nesse caso, operadores de telemarketing.

O conteúdo programático da prova de Santana do Pirapama é uma monstruosidade. O candidato precisa conhecer, entre outras coisas, teorias da comunicação, comunicação pública, gestão de marcas, teoria da argumentação, novas tecnologias, as condições de produção da notícia, projeto gráfico, planejamento editorial, diagramação e webjornalismo. E a bibliografia vai de Castells, com A Sociedade em Rede, até a História da Imprensa, de Nelson Werneck. Tudo isso para ganhar R$ 930 por mês.

Fico me perguntando se algum dia, teremos concursos e processos seletivos com alinhamento adequado das atribuições e do que vai ser exigido na prova. De nada adianta listar no conteúdo programático, por exemplo, projeto gráfico se a função do profissional será fazer release. A sensação é de que alguns órgãos públicos atiram para todos os lados para tentar acertar em alguma coisa, mas não sabem definir o que querem.

E pior do que um edital com fragilidades estruturais é aquele que foi feito no “copiar, colar”. Em Minas Gerais também tem outro exemplo. A Prefeitura de Pirapora, na região norte, realizou no ano passado um concurso com seis vagas para jornalista – destinadas exclusivamente para graduados nessa área, como deve ser. Acontece que as atribuições do cargo diziam que os aprovados deveriam fazer reportagem para a rádio e a TV da Fundação Piratini. A instituição é do governo do Rio Grande do Sul, responsável pela TV Educativa daquele estado. Como nasci e cresci em Pirapora, entrei em contato com uma pessoa da prefeitura e relatei que havia identificado esse problema no edital. Dias depois, a retificação foi publicada.

Infelizmente nem sempre o que precisa ser realmente corrigido é simples. Querer pagar um ou dois salários mínimos para um profissional graduado em qualquer área é algo vergonhoso. É compreensível que em um concurso para órgãos menores, grandes valores sejam impraticáveis. Mas, obrigar o profissional a uma situação de quase fome é inaceitável. Os gestores têm que entender que isso desvaloriza a própria instituição. No entanto, o mais urgente é fazer com que os dirigentes públicos entendam o que é comunicação.

 

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